SACOLAS

 

Era mais uma noite daquelas. Mais uma daquelas noites sozinhas. Já havia anos que ela preferia assim. Mas hoje em especial seu coração sentia o sereno que não pára de cair sobre os solitários.
Ela decidiu sair de casa e ir até o mercado próximo e comprar umas porcarias. Nada melhor pra ver televisão sozinha do que um saco de porcarias e sorvetes e chocolates, snacks etc.
Sábado a noite, fazer compras pode ser uma maneira de conhecer alguém e conversar. Alguém sozinho também. Alguém pra ver tevê.
Mas em algum lugar, na sala de controle, decidiram apertar forte o coração daquela garota. Ela chegou, agarrou um carrinho pequeno e caminhou devagar por entre os caixas em direção as prateleiras de produtos. Devagar, estendendo cada momento daquela distante noção de convivio social. "Ah, um homem sozinho no balcão de frios" até pensou em uma desculpa estúpida pra começar uma conversa, mas logo viu que ele estava acompanhado. Decidiu pegar uma bebida e foi até a sessão de vinhos. Em mais uma ligeira ironia da sala de controle, vários casais escolhiam seus vinhos para a noite de sábado. Mulheres elegantes usando suas roupas de festa e homens bonitos fingindo saber alguma coisa sobre taninos e tons violáceos. Ridículos casais na noite em um supermercado antes de irem pra casa, se embebedarem e terminarem a noite entre lençóis sujos de fluídos humanos. eca! Ela agarrou um six-pack de cerveja e foi até os sorvetes.
Enquanto decidia entre os sabores, ouviu uma grande zona, barulho e gargalhadas. Várias pessoas, duzias delas fantasiadas. Mais pessoas indo para festas de sábado a noite. Molecada saindo junta, bebendo e passando ridículo com essas fantasias estúpidas, pensou ela. Todos estavam acompanhados, se preparando pra festas e gargalhadas, risadas e conversas. E ela se deu conta de ser a unica pessoa sozinha. Com um carrinho cheio de porcarias. Como eu sou ridícula, eles devem estar pensando que eu sou alguma viuva depressiva maluca.
Decidiu ir embora, tomou o caminho da fila do caixa. Haviam algumas pessoas a sua frente. Reparou num homem. Bonito. Estava na sua frente na fila e tinha uma garrafa de vinho. Passou pela sua cabeça que tipo de coisas aquele homem faria depois de uma garrafa. Ele se virou pra ela e ela sentiu o brilho se abrir como lua cheia em seus olhos. Mas ele apenas abriu passagem para sua namorada, uma mulher linda, morena, em vestido de festa, trazendo uma garrafa de tequila.
E aquele eclipse total da lua sobre seus olhos a derrubou ainda mais. Pediu um pacote de Marlboro á mulher do caixa e deixou o mercado carregando sozinha suas sacolas.